Existe Milagre Pós Lipólise?

Depois de um tratamento estético que induz lipólise, para onde vai a gordura? Ela sai na urina? Nas fezes? No suor? Existe algum milagre após a lipólise? Alguma mágica?

Não.

Entender a fisiologia nos tira das trevas da ignorância da replicação de protocolos sem saber o que tem por trás deles. E nos leva ao próximo nível: ao nível do profissional da estética do futuro. Aquele que sabe exatamente o que o cliente precisa. Aquele que entende das interações biológicas dos nossos recursos estéticos com a região anatômica que trabalhamos. O resultado disso? Você saberá exatamente o que indicar, e como orientar seus clientes para de fato terem o resultado que esperam. Com isso, você consegue entregar o resultado tão sonhado!

Fisiologia

Eu entendo que é difícil compreender todos esses mecanismo bioquímicos e fisiológicos. E que é necessário ler um milhão de vezes o mesmo artigo, o mesmo capítulo do livro de Fisiologia para clarear as ideias, e assim chegar num mapa mental aplicável para a prática clínica. Mas tenho uma boa notícia…. Eu fiz isso pra você, com muito amor, carinho, e com a Ciência que nossa área pede.

Em primeiro lugar, precisamos saber que nosso corpo não permite que a energia que consumimos seja perdida. Ou ela é utilizada para os processos metabólicos, ou simplesmente é armazenada nas nossas células de gordura, os adipócitos.

Pense comigo: Se a gordura saísse no xixi ou por outra via, assim fácil, qual seria mesmo o motivo para se preocupar com a obesidade? Então, vamos ao início para desenvolver um raciocínio clínico, e entender como tudo isso funciona.

Gordura!

A gordura que armazenamos tem a ver com sobrevivência. Se esse mecanismo não existisse, hoje eu não estaria aqui para escrever, nem você para ler esse post. Na época das cavernas, conseguir alimentos era algo incerto. Então, nossa fisiologia, guiada pelo nosso cérebro, buscava sempre por alimentos de alto valor calórico e de gordura. Isso garantia fornecimento de energia suficiente para manter o organismo funcionando até a próxima refeição.

Mas, mesmo se alimentando com alimentos calóricos, nossos ancestrais mantinham um balanço energético equilibrado. Isto é, consumiam o que ingeriam. O que não dava chance para aquela gordurinha se instalar no abdômen, como estamos acostumados atualmente. Agora, e no momento que vivemos nos dias de hoje, como isso funciona?

Oferta e demanda

A oferta de alimentos é grande, a quantidade que se ingere vai além do que nosso corpo precisa. E o que ele faz? Estoca, claro. Além do mais, o esforço para gastar tudo isso é cada vez menor, com menos exercícios físicos. Com isso, favorece-se não só a gordurinha localizada, como o aumento de peso, tornando a obesidade cada vez mais preocupante. Afinal, além da função de armazenamento, o tecido adiposo fabrica as adipocinas. Se não fosse elas, emagrecer ou controlar aquela gordinha crescendo na cintura de fato seria apenas uma preocupação estética.

Regulação… ou não

As adipocinas têm poder de regular inúmeras funções metabólicas, inclusive a sensação de saciedade. Também “dizem” o quanto as células adiposas devem estocar, isso quando secretadas na quantidade ideal. Já reparou que nosso cliente com muita gordura ou sobrepeso tem dificuldades de seguir uma alimentação mais equilibrada? A liberação das adipocinas é proporcional à quantidade de tecido adiposo em nosso corpo. Quanto mais gordura, mais adipocinas.

E aí está um grande problema… Quanto mais adipocinas circulantes no sangue, cria-se uma resistência dos receptores à sua ação. Então, elas não funcionam como deveriam. Tudo fica desregulado. E um ciclo crescente de aumento desse tecido acontece se não brecarmos tudo isso.

Para pra pensar aqui comigo: Será que nosso cliente está ali só para tratar gordura? Será que é só nisso que devemos pensar?

Missão que vai além

Claro que não. Nossa missão é ajudá-lo também a mudar de vida. Ter mais saúde, controlar o peso, o tipo de alimentação, incentivar a prática de exercícios físicos. Se eu não oriento e o ajudo a quebrar esse ciclo, haverá resultado estético satisfatório?

Sem saber toda essa dinâmica, continua-se depositando toda a responsabilidade nas tecnologias, nos cosméticos. A Estética é uma Ciência, e é preciso um trabalho em conjunto para se obter resultados.

Onde tudo começa!

O nascimento do tecido adiposo… Ou melhor: gênese adipocitária, para ficar à nossa altura!

Tudo começa no útero da nossa mãe. Temos 2 períodos de desenvolvimento normal do tecido adiposo. O primeiro começa no primeiro trimestre de vida intra uterina, e se prolonga até o 18º mês de vida pós natal. Nesse período, ocorre o aumento do tamanho (hipertrofia) e do número de células (hiperplasia).

Pré-adolescência

O segundo período ocorre entre os 10 e 13 anos de idade, caracterizado por aumento no número de adipócitos (hiperplasia), que coincide com o “surto puberal”. O desenvolvimento do tecido adiposo é mais pronunciado no sexo feminino. Essa é uma fase crítica, pois une-se o fenômeno fisiológico normal de crescimento desse tecido com o ambiente alimentar que essa criança vive. Uma má combinação desses fatores pode acarretar no gatilho para a obesidade e depósitos indesejados de gordura. Ao unir fisiologia a excesso de alimento, tem-se muito mais células de gordura, e seus efeitos sobre o metabolismo se iniciam. Isso é muito importante na avaliação clínica e entrega do prognóstico. Quanto mais tempo a gordura está ali, maior será sua resistência em sair, e mais profunda estará, o que muda toda a estratégia de tratamento.

O que acontece depois

Depois desses dois períodos, pode ocorrer hiperplasia ou hipertrofia de adipócitos, nos casos de aumento da ingesta alimentar e desequilíbrio hormonal, como na menopausa, na gestação e no hipotireoidismo.

A partir do momento em que o tecido adiposo é formado, ele pode evoluir e continuar aumentando em tamanho e número de células pela ação de hormônios, enzimas e neurotransmissores que induzem a lipogênese, que ocorre sempre que o balanço energético é positivo (quando comemos mais e gastamos menos). Ou também pode sofrer lipólise, também mediada por hormônios, neurotransmissores e enzimas, quando o balanço energético é negativo.

Beta-oxidação

Pode-se induzir lipólise ao diminuir a ingesta calórica, aumentar o exercício físico, e pela maioria dos tratamentos estéticos, salvo criolipólise e ultrassom focalizado, que induzem apoptose e necrose celular, respectivamente. Depois de ocorrido o processo de lipólise, essa gordura precisa passar pela “queima”, pela “destruição”. Ou melhor, precisa ser utilizada como forma de energia pelas células, num processo denominado beta-oxidação.

Energia a mais?

Quando o organismo tem energia sobrando, ele sintetiza triglicerídeos (TGA) a partir dos ácidos graxos e do glicerol. Quando os ácidos graxos passam pela circulação do tecido adiposo, sofrem a ação da LPL (lipoproteína lipase), enzima que fica armazenada na parede desses capilares e desencadeia a entrada desses ácidos graxos na célula adiposa, que junto com o glicerol formaram o TGA. Mediante o excesso de TAG nos adipócitos, essas células se tornam hipertróficas e aumentam de tamanho. Conforme a ingesta aumenta e o espaço diminui, novos adipócitos são formados para armazenar mais gorduras. E por aí vai.

Aplicações

Faz sentido gerar lipólise em um organismo que está em constante lipogênese, hipertrofia e hiperplasia? Vamos conseguir resultados efetivos?

O primeiro passo para quebrar esse ciclo é um conversa franca com seu cliente na avaliação. Porque a maioria não sabe que Estética é só umas das estratégias, e tendem a achar que só o tratamento irá resolver o seu problema.

Conversado, entendido e combinado, agora sim podemos iniciar a indução do processo de lipólise. Os recursos estéticos facilitam a lipólise em locais onde a restrição calórica e o exercício físico não dão conta, porém quando essa gordura cai na corrente sanguínea ela se mistura com as gorduras mobilizadas por outros mecanismos e o corpo vai utilizar o necessário e estocar o excedente. Fato.

Estratégia

Por isso, o esforço e estratégia estética de quem está acima do peso deve ser diferenciado. Mas estética é indicado para quem está acima do peso? Algumas técnicas podem estar contra indicadas neste momento de sobrepeso ou obesidade. Porém, é nossa missão ajudar pessoas a alcançarem seus objetivos. É nosso dever orientar e deixar bem claro o caminho para se obter esses resultados.

Ter uma estratégia de emagrecimento na sua clínica é indispensável. Você pode ajudar muita gente a ser feliz de novo e viver bem com sua aparência. Não abandone as pessoas que te procuram pedindo ajuda dizendo que Estética não é pra quem está acima do peso. Também, não venda tratamentos estéticos para quem está em sobrepeso ou obesidade sem traçar uma estratégia de associações multidisciplinares.

O porquê…

A lipólise ocorre quando há um balanço energético negativo, sob a ação da enzima lipase hormônio sensível, o TGA é hidrolisado em 3 ácidos graxos e 1 glicerol, e está pronto para sair da célula e ganhar a corrente sanguínea. E aqui há outro detalhe: se há um excesso de glicose no sangue e um aumento da insulina, que é super amiga da lipogênese, a síntese de TGA ocorre novamente, então o cliente que está com taxas altas de açúcar e alimentação toda errada vai fazer lipólise? Vai, mas não dá nem tempo de chegar na próxima fase, que é a beta oxidação, porque a insulina vai jogar ela pra dentro da célula novamente, e tem muitos outros mecanismos que bloqueiam esse processo. Mas vamos abordando aos poucos, para o cérebro não ficar sem energia e embananar tudo!

Ácidos graxos

Quando os ácidos graxos conseguem atingir a circulação, chegam aos músculos, um dos principais sítios da sua degradação, e agora necessitam ser utilizados, caso contrários voltarão a ser armazenados. A lipólise também é influenciada por um sistema chamado neurovegetativo. Vou destacá-lo neste post, pois a maioria dos nossos tratamentos estéticos atuam sobre ele.

Hormônios

O tecido adiposo é altamente inervado por terminações nervosas responsáveis por enviar diferentes mensagens para o sistema nervoso central, que responde com uma ação local. No caso da lipólise, temos a ação das catecolaminas, que são liberadas frente a estímulos mecânicos, elétricos e térmicos, como ultra som, eletrolipólise e terapia combinada.

Catecolaminas

As catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) são o primeiro passo para ativação da enzima lipase hormônio sensível. Esta lipase seria inibida pela fosfodiesterase, que é estimulada pela insulina e bloqueada por metil-xantinas. Como exemplo, temos a cafeína, que usamos em associação nos tratamentos estéticos redutores e está presente na maioria do dermocosméticos que utilizamos.

As catecolaminas liberadas nas fendas sinápticas precisam se ligar a receptores específicos de membrana para gerar ação lipolítica. No caso dos adipócitos, temos os receptores beta adrenérgicos. Vale lembrar aqui que alguns locais possuem menos receptores beta adrenérgicos, como o famoso culote, ou região trocantérica. E, pior ainda, possuem mais receptores alfa adrenérgicos (que são anti lipolíticos e fortemente influenciado pela insulina, que bloqueia a ação das catecolaminas).

Oxidação

Um fator importante que também bloqueia a ação beta adrenérgica é o excesso de ácidos graxos circulantes, o que torna bem interessante o cliente fazer exercício físico antes da sessão. Após o estímulo da lipase hormônio sensível nos receptores beta adrenérgicos e a quebra do TGA em ácido graxo livre e glicerol, os ácidos graxos serão oxidados na mitocôndria celular.

Lipólise e lipogênese

Na beta oxidação ocorre a transformação desse ácido graxo em ATP, que será utilizado para as funções celulares. E caso tudo isso aconteça e ainda tenha excesso de energia, adivinha?

Voltamos lá para a lipogênese, e temos novamente essa gordura depositada nos adipócitos! Então vamos concluir o pensamento… Adianta a cliente queimar antes na academia o excedente, ir na clínica fazer lipólise, você vai lá, oxida mais um pouco dessa energia circulante, isso nos dias que ela vai no tratamento. E nos outros dias ela não faz nada, e ainda come um pouquinho a mais.

Então é legal sempre orientarmos as clientes a todos os dias promover oxidação (exercício físico), regulando ingesta (alimentação saudável e com quantidade apropriada), promovendo lipólise, estimulando os adipócitos mais resistentes (tratamentos estéticos e produtos home care).

Rotina e hábitos

Esse ciclo diário vai estabelecer uma rotina, ajudar a cliente mudar seus hábitos. Ela vai observar constante melhora, e também se motivar a seguir cada dia mais, o que fará com que esses resultados obtidos sejam duradouros. E, claro, você vai fidelizar, ela vai te amar para o resto da vida, vai continuar fazendo tratamentos estéticos com você e vai trazer todas as amigas dela, simples assim. Quando trabalhamos com associações, com responsabilidade, verdade e conhecimento, não tem como dar errado.

Agora, pra arrumar todo esse conhecimento adquirido aqui hoje e fixá-lo em todos os seus neurônios eu montei um 2 esquemas práticos…. Se você quiser imprimir e colar na sua parede pra sempre lembrar dos passos importantes, ou se quiser apenas guardar na mente, você quem sabe, o importante é entender o caminho a seguir para ter os melhores resultados:

  • Ciclo da Gordura: Esquema lipogênese, lipólise e beta oxidação
  • Ciclo MULTI ADIPOREDUT: Conduta terapêutica de sucesso para redução do tecido adiposo

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Se tiver qualquer dúvida coloca aqui nos comentários que eu vou adorar responder!

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